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O dilema dos relacionamentos: uma leitura psicanalítica sobre conflitos e transformação

Será que a verdadeira arte de relacionar não está na forma como lidamos com os conflitos, ao invés de acreditar que relacionamento bom é um relacionamento sem brigas, sem problemas e sem autenticidade ?”


Essa pergunta nos convida a revisar um ideal amplamente difundido: o de que relações afetivas saudáveis seriam necessariamente harmoniosas e livres de embates. No entanto, esse modelo de “paz constante” ignora uma verdade essencial: onde há dois sujeitos, há diferença — e onde há diferença, haverá conflito.

A psicanálise nos propõe uma escuta mais fina sobre o modo como nos relacionamos. Não se trata de romantizar os atritos, mas de compreender que a forma como atravessamos os impasses diz muito mais sobre a saúde do vínculo do que a sua simples ausência.


O conflito como manifestação do desejo

Sigmund Freud, ao estudar a vida psíquica, nos mostra que o desejo é ambíguo, e frequentemente inconsciente. Desejamos proximidade, mas também autonomia; buscamos amor, mas tememos o desamparo. Ao nos relacionarmos, essas forças se entrelaçam com as do outro — que, por sua vez, também carrega seus conflitos.

Jacques Lacan aprofunda esse entendimento ao dizer que “o desejo é o desejo do Outro”: somos marcados pelo olhar alheio, pelo seu desejo, pelas suas faltas. Isso nos coloca inevitavelmente em uma posição de negociação — e, muitas vezes, de tensão.

Assim, o conflito não é um sinal de falha relacional, mas uma expressão legítima do encontro entre duas subjetividades. É o lugar onde o desejo fala.


O vínculo como espaço de transformação

O psicanalista Donald Winnicott propõe a ideia de um “espaço potencial” — um território intermediário entre a realidade interna e externa onde o brincar, o experimentar e o criar se tornam possíveis. Nos relacionamentos, esse espaço é onde podemos existir como somos, sem necessidade de nos apagar ou moldar totalmente ao outro.

Um relacionamento saudável não é aquele que elimina o desconforto, mas aquele que permite que o desconforto seja nomeado, elaborado e transformado. Quando dois sujeitos conseguem atravessar os conflitos sem que um precise desaparecer para que o outro exista, algo verdadeiramente novo pode emergir.


O mito da harmonia permanente

Melanie Klein nos ajuda a pensar o amor em sua complexidade. Ao distinguir entre a idealização e o amor maduro, ela mostra que o amadurecimento psíquico passa pelo reconhecimento da ambivalência: o outro que amamos também nos frustra. Isso não destrói o amor — ao contrário, o fortalece. 

Reformular nossa ideia de relacionamento saudável é uma tarefa urgente. Quando passamos a enxergar os conflitos como parte do processo — e não como sinais de fracasso —, criamos espaço para relações mais verdadeiras e menos idealizadas.


O verdadeiro pilar de um vínculo está, talvez, não em sua calmaria, mas em sua capacidade de sustentar o movimento: de se abalar, refletir, e reorganizar-se a partir da escuta e da presença mútua. Mais do que evitar rupturas, precisamos aprender a transformar os atritos em linguagem, e a dor do desencontro em possibilidade de reconstrução

 
 
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